Carnaval de Santos 2026
A avenida como espelho da cidade e da emoção popular
O Carnaval de Santos viveu, em 2026, uma de suas aberturas mais intensas e simbólicas dos últimos anos. A Passarela Dráuzio da Cruz se transformou em muito mais do que um palco de festa, foi território de identidade, resistência cultural e pertencimento. Entre o brilho das fantasias, o peso dos enredos e a força comunitária das arquibancadas lotadas, a cidade assistiu a duas noites que reafirmaram o samba como narrativa viva do povo santista. A atmosfera inaugural já dava o tom do que viria: energia pulsante, foliões cantando como parte do desfile e escolas desfilando com a responsabilidade de sustentar tradição e, ao mesmo tempo, reinventá-la.
Primeira noite: memória, cidade e brasilidade como espetáculo
O primeiro dia trouxe um equilíbrio interessante entre exaltação cultural e emoção histórica. No Grupo de Acesso, Brasil, Império da Vila e Bandeirantes do Saboó abriram caminhos com enredos que dialogaram diretamente com o público.
A escola Brasil, por exemplo, acertou ao apostar em um tema amplo e agregador: “Hoje é dia de Brasilidade”. Foi um desfile de conexão imediata, daqueles que ganham arquibancada no primeiro refrão, celebrando diversidade, resistência e alegria popular.
Já o Império da Vila trouxe densidade ao desfile com “Maria Faces da Mulher”, um enredo que misturou empoderamento e arte com alegorias imponentes, mostrando como o Carnaval também é espaço de reflexão social.
E a Bandeirantes do Saboó, celebrando 30 anos, soube transformar aniversário em afirmação competitiva: nostalgia e inovação caminharam juntas em uma apresentação que deixou claro o cuidado estético e a preparação da comunidade.
No Grupo Especial, a noite atingiu outro patamar emocional
A União Imperial, celebrando meio século de história, desfilou como quem carrega o peso de uma tradição fundadora. Com 1.500 componentes e um enredo autobiográfico, a escola entregou uma viagem por sua própria trajetória, e emocionou justamente por isso, porque a avenida virou memória coletiva.
A Real Mocidade Santista, por sua vez, fez do desfile uma carta de amor à cidade, homenageando os 480 anos de Santos e incorporando símbolos do patrimônio local, inclusive o Santos Futebol Clube, provocando uma vibração extra nas arquibancadas. Foi uma celebração conjunta entre escola e povo.
Fechando a noite, Vila Mathias e Independência do Casqueiro sustentaram o alto nível de espetáculo e reforçaram que o Grupo Especial santista vive um momento de amadurecimento artístico.
Segunda noite: chuva, resistência e impacto social
Se a primeira noite foi marcada pela festa luminosa, a segunda foi marcada pela superação. A chuva caiu forte sobre a passarela, criando poças e dificultando a evolução, mas o que poderia ser obstáculo virou símbolo: nenhuma escola se encolheu. Pelo contrário, a água pareceu amplificar a coragem das comunidades.
A Imperatriz Alvinegra abriu os trabalhos exaltando o São João e a cultura nordestina, com referências religiosas e personagens como Lampião e Maria Bonita. Um desfile que reafirmou o litoral como espaço de encontros culturais.
A Dragões do Castelo trouxe um enredo espiritual, de mandingas e patuás, com brilho excessivo e emoção visível, uma apresentação que apostou na estética e no sentimento como proteção simbólica contra energias negativas.
Mas foi a Unidos da Zona Noroeste quem entregou o golpe mais crítico da noite: “Falsa Abolição – Somos os netos dos negros que vocês não conseguiram matar” foi mais do que desfile, foi manifesto. Um Carnaval que denuncia, que incomoda e que educa. O impacto social e histórico foi um dos pontos mais altos de todo o evento.
No encerramento do Grupo de Acesso, a Sangue Jovem entrou em modo reconstrução. Rebaixada no ano anterior, desfilou com um enredo emotivo sobre o Santos Futebol Clube, resgatando ídolos e a memória esportiva como combustível para retornar à elite.
Grupo Especial: juventude, ancestralidade e preservação
A Mocidade Independente Padre Paulo abriu o Especial com um enredo urbano e social, exaltando conquistas da periferia. A quebra de uma roda em uma alegoria trouxe tensão ao desfile, mas também evidenciou a capacidade de reação e unidade da escola, algo que pode pesar positivamente na leitura geral.
A Mocidade Amazonense encantou ao mergulhar nas raízes indígenas e no misticismo do povo Enawenê-Nawê. O abre-alas com onças gigantes foi um dos grandes momentos plásticos do Carnaval santista em 2026.
A X-9, sempre favorita, fez da chuva mais uma vez um cenário épico. Com o enredo sobre o mar e a preservação ambiental, entregou um desfile tecnicamente forte, com arquibancada cantando do início ao fim e alegorias que criaram um verdadeiro mergulho oceânico na avenida.
E a Unidos dos Morros encerrou com ousadia temática: o jogo do bicho como cultura e contravenção, abordando história, imaginário popular e ambiguidade brasileira, fechando a noite com força estética e energia.
Um Carnaval que reafirma Santos como potência cultural
O Carnaval de Santos 2026 foi mais do que disputa entre escolas. Foi um retrato do povo: da brasilidade à denúncia social, da fé popular à preservação ambiental, da memória futebolística ao orgulho periférico. Duas noites em que a avenida provou, mais uma vez, que samba não é só festa: é linguagem, identidade e resistência. E agora, com a apuração no horizonte, fica a sensação de que a cidade viveu um Carnaval completo, daqueles que permanecem na memória mesmo depois que o último surdo silencia.